Atividade viral do SARS-CoV-2 nas fezes está associada com a composição da microbiota intestinal de pacientes com COVID-19

Atividade viral do SARS-CoV-2 nas fezes está associada com a composição da microbiota intestinal de pacientes com COVID-19

A COVID-19 é uma doença respiratória aguda em decorrência da infecção por vírus SARS-CoV-2 no trato respiratório superior. Contudo, SARS-CoV-2 já foi detectado em fezes de indivíduos com COVID-19. É possível, que o novo corona vírus infecte o intestino pela interação do vírus SARS-CoV-2 com receptores da enzima conversora de angiotensina 2 (ACE2) expressos no trato gastrointestinal. No entanto, duvida-se se a presença do SARS-CoV-2 nas fezes pode ser relacionada com a transmissão fecal-oral do patógeno, pois a atividade e infectividade deste vírus nas fezes e sua relação com o microbioma intestinal ainda está pouco elucidada.

Recentemente, a revista científica GUT publicou um estudo longitudinal, prospectivo que avaliou, em fezes de doentes com COVID-19, a composição e funcionalidade do microbioma intestinal em associação com a infectividade do SARS-CoV-2. Foram incluídos 15 pacientes com COVID-19, 7 homens e 8 mulheres, com mediana de idade 55 anos admitidos em um hospital em Hong Kong entre fevereiro e março de 2020. Os pacientes foram acompanhados, em média por 21 ± 2,4 dias, durante todo o período de internação até a alta hospitalar. Todos os doentes apresentaram sintomas respiratórios, mas apenas um apresentou sintoma gastrointestinal na admissão. Nenhum indivíduo desenvolveu sintomas gastrointestinais durante a internação. Amostras fecais foram coletadas de forma seriada até que o resultado dos testes diagnósticos para SARS-CoV-2 – swabs nasofaringe ou garganta – se apresentassem negativos em duas amostras consecutivas. A infectividade do SARS-CoV-2 nas fezes foi classificada em alta ou baixa-a-nula de acordo com o resultado a análise metagenômica do RNA viral com base em evidências de modelos celulares a partir da transcriptômica viral.

Sete pacientes apresentaram SARS-CoV-2 nas fezes no início do estudo, e 47% foi associada a infecção viral ativa no intestino apesar da ausência de sintomas gastrointestinais. Além disso, a infecção viral ativa no intestino persistiu mesmo após o clareamento do vírus nas vias aéreas. As amostras de fezes com alta infectividade do SARS-CoV-2 apresentaram elevada abundância das espécies bacterianas Collinsella aerofaciens, Collinsella tanakaei, Streptococcus infantis, Morganella morgannii e maior capacidade funcional da microbiota em glicólise e na síntese de nucleotídeos (adenosina e guanosina) e aminoácidos, quando comparadas com as amostras de baixa-a-nula infectividade (p<0,05). Em conjunto, essas atividades metabólicas são essenciais para a vida de bactérias intestinais durante condições imunopatológicas. Ademais, entre as espécies identificadas, a C. aerofaciens e M. morgannii são associadas com infecções oportunistas. O S. infantis é abundante no trato respiratório superior e cavidade bucal e sua presença nas fezes sugere passagem ou transmissão extra intestinal de micróbios para o intestino.

As amostras de fezes com baixa-a-nula infectividade do SARS-CoV-2 apresentaram elevada abundância das espécies bacterianas Parabacteroides merdae, Bacteroides stercoris, Alistipes onderdonkii, Lachnspiraceae bacterium 1_1_57FAA quando comparadas com as amostras de alta infectividade (p<0,05). Bactérias membros dos gêneros Parabacteroides, Bacteroides e Lachnspiraceae são produtoras de ácidos graxos de cadeia curta, principalmente butirato. Esses metabólitos apresentam funções importantes na melhora da imunidade do hospedeiro. As espécies do gênero Alistipes são produtoras de indole, um metabólito envolvido no metabolismo do triptofano e serotonina, que contribui para a manutenção da homeostase intestinal.

Os autores concluíram que existe infecção viral ativa do SARS-CoV-2 no intestino mesmo na ausência de sintomas gastrintestinais e que ela pode persistir após a recuperação da infecção pulmonar. Adiciona-se que, os achados do estudo destacam o aumento de bactérias oportunistas nos pacientes com infecção ativa do SARS-CoV-2 no intestino, acompanhado do aumento na capacidade funcional no metabolismo de carboidratos e na síntese de nucleotídeos e aminoácidos.

Referência:

ZUO, T. et al. Depicting SARS-CoV-2 faecal viral activity in association with gut microbiota composition in patients with COVID-19. Gut, 20 jul. 2020.

Link: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32690600/

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