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Consumo de emulsificantes dietéticos podem alterar a microbiota intestinal

O consumo de alimentos altamente processados teve um aumento crescente a partir do século 20. O uso de um ou mais emulsificantes e/ou espessantes é muito comum para prolongar a vida útil e melhorar consistência nesses alimentos. Alguns tipos são componentes naturais de alimentos não processados, como a lectina, já outros, são sintéticos, um exemplo disso é a carboximetilcelulose (CMC).

Estudos recentes especulam a relação do consumo de emulsificantes dietéticos sobre efeitos na microbiota e saúde intestinal.

Apesar desses elementos serem aprovados para uso alimentício por presumir-se que eles não são absorvidos pelo intestino e são eliminados nas fezes, tudo que faz passagem pelo intestino tem a chance de interagir com a microbiota e mucosa  intestinal. 

Estudos mais recentes feitos em camundongos mostraram que o consumo do CMC afeta diretamente o tempo de trânsito intestinal, expressão gênica e composição do microbioma e alterou, também, a composição dos ácidos biliares fecais.

Por este motivo, um estudo buscou investigar esse impacto em seres humanos. Para minimizar efeitos adversos externos que pudessem afetar os resultados do trabalho, foi feito um estudo de “internação” na Pensilvânia, garantindo a adesão do protocolo, monitoramento diário, coleta de exames idênticos e controle da dieta (com ou sem CMC).

Foram no total 14 dias de estudo, 3 dias ambulatoriais e 11 dias de internação, para 16 voluntários saudáveis com idade entre 18 a 60 anos. Foram excluídos pacientes com diagnóstico confirmado de Doença Inflamatória Intestinal, Doença Celíaca ou outros distúrbios intestinais crônicos, fumantes atuais, frequência intestinal basal menor que a cada 2 dias ou mais de  vezes ao 3 dias, IMC menor de 18 ou maior de 40 kg/m² e mais de 2 critérios de inclusão para Síndrome Metabólica (circunferência da cintura > 89 cm para mulheres ou 102 cm para homens, diagnóstico de diabetes mellitus ou HbA1c basal > 6,4% ou glicemia de jejum maior que 100 mg/dL; pressão arterial sistólica > 130 mm Hg ou pressão arterial diastólica >85 mm Hg ou tratados com medicamentos para hipertensão; triglicerídeos em jejum >149 mg/dL ou tratados com medicamentos para hipertrigliceridemia; colesterol de lipoproteína de alta densidade em jejum <40 mg/dL em homens ou < 50 mg/dL em mulheres ou tratadas com medicamentos para hipercolesterolemia).

O grupo controle foi composto de 4 homens e 3 mulheres (n=7), com IMC médio de 25.32 kg/m². O grupo CMC foi composto por 3 homens e 6 mulheres (n=9), com IMC médio de 24.53 kg/m². A dieta utilizada foi feita dentro do hospital, seguindo o padrão de Dieta Ocidental (55% de CHO, 30% de gordura e 15% de proteína), sendo considerada saudável pelo Índice de Alimentação Saudável.

Todos os participantes tiveram uma alimentação livre de emulsificantes 80 horas antes do início da avaliação e após isso, no 4º dia de internação o grupo controle recebeu uma dieta com 0g de CMC e o grupo CMC recebeu uma dieta com 15g de CMC /dia. O formato de intervenção foi feito em 3 refeições programadas por dias, sendo o alimento brownie e sorvete, com 0g de CMC no grupo controle ou 2,5g de CMC em cada alimento.

Exames de urina (jejum – antes da admissão e todos os dias de estudo), sangue (jejum – antes da admissão, dia 1 a 4, 8, 10, 11 e 1 mês após alta), fezes (antes da admissão, todos os dias do estudo e 1 e 3 meses após alta).

O consumo de CMC não foi associado a alterações graves de níveis séricos de citocinas inflamatórias, inchaço ou impacto no apetite. Além disso, os níveis de anticorpos anti-lipopolissacarídeos e anticorpos anti-imunoglobulina G anti-flagelina, que têm sido usados ​​como medida indireta da permeabilidade intestinal não foram alterados em ambos os grupos. O consumo de CMC associou-se a um aumento modestamente significativo na dor abdominal pós-prandial (P=0,019).

Análise das amostras de fezes demonstraram que o grupo CMC teve maiores alterações na microbiota intestinal (dia 0 P=0,928, dia 9 P=0,228, dia 14 P=0,002). Além disso, a análise do dia 4 revelou uma tendência de maiores alterações da microbiota durante o período de intervenção no grupo CMC em comparação com o grupo controle (P=0,102). Peso fecal e densidade bacteriana não se alteraram nas análises feitas (P=0,503).

A investigação das variantes de sequência (SVs) revelou que foram geralmente representados de forma estável em indivíduos do grupo controle no dia 14 em comparação com o dia 4, enquanto a abundância relativa desses SVs foi marcadamente afetada pelo consumo de CMC, incluindo diminuições em Faecalibacterium prausnitzii e Ruminococcus sp., e aumentos em Roseburia sp. e Lachnospiraceae.

Como conclusão, a ingestão de 15g de CMC ao dia muito provavelmente excede o consumo tradicional diário da população, mas se aproxima muito do consumo de uma dieta rica em alimentos industrializados. Este consumo mostrou a redução da riqueza do microbioma intestinal, muito relacionado com diversas doenças, argumentando que emulsificantes dietéticos podem perturbar a relação microbiota-hospedeiro.

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