Atualização da diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia

Atualização da diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia

Atualização da diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia: o que há de novo na prevenção cardiovascular?

A Sociedade Brasileira de Cardiologia publicou recentemente a atualização de sua Diretriz de Prevenção Cardiovascular, apresentando novas estratégias de abordagem dos fatores de risco clássicos e novos conceitos, como a necessidade de agregar o conhecimento de fatores de risco emergentes como espiritualidade, fatores socioeconômicos e ambientais, bem como estratégias adicionais como o uso de vacinas.

A nova diretriz apresenta 12 tópicos que englobam desde estratificação de risco até fatores socioeconômicos e ambientais. Destacamos abaixo algumas das recomendações não farmacológicas abordadas:

Obesidade e sobrepeso: A diretriz chama a atenção para a prevenção primária de sobrepeso e obesidade, principalmente em crianças e adolescentes e cita como recomendação os 10 passos para uma alimentação saudável presentes no guia alimentar para a população brasileira de 2014.

Hipertensão arterial: A atualização inclui uma revisão recente de propostas de intervenções alimentares para a prevenção e o controle da hipertensão arterial que destaca as seguintes dietas: DASH (Dietary Approaches to Stop Hypertension), dieta com baixo teor de gordura, hiperprotéica, dieta com baixo teor de carboidratos, moderada em carboidratos, de baixo índice glicêmico, hipossódica, vegetariana, vegana, mediterrânea, paleolítica, nórdica e tibetana. A Diretriz recomenda, ainda, que o consumo diário de sódio seja limitado a aproximadamente 2,0 g (o equivalente a cerca de 5,0 g de sal por dia).

Ômega-3: Uma alimentação à base de peixe pelo menos duas vezes por semana diminuiu o risco cardiovascular, particularmente entre pacientes com alto risco, tem recomendação classe I.

A suplementação 2 a 4g por dia com ômega-3 marinho ou até em doses mais elevadas é fortemente recomendada (classe I) para pacientes com trigliceridemia (>500 mg/dL) na ausência de quilomicronemia familiar, com risco de pancreatite, refratários a medidas não farmacológicas e tratamento medicamentoso.

A suplementação de 4 g por dia de ômega-3 na forma de EPA em pacientes de prevenção secundária em uso de estatinas e trigliceridemia entre 150 mg/dL e 499 mg/dL recebeu recomendação classe II. Também consta uma recomendação classe II para a suplementação de 1 g por dia de ômega-3 (EPA + DHA) em pacientes com insuficiência cardíaca. Por outro lado, a suplementação de EPA + DHA, bem como de ácido alfa-linolênico para prevenção primária não é recomendada.

Tabagismo: A atualização ressalta a carência de critérios para a escolha inicial do medicamento antitabaco, devido à falta de sistematização de modelos a serem testados. Os malefícios relacionados com o uso dos dispositivos eletrônicos com nicotina (cigarros eletrônicos) foram enfatizados na Diretriz, justificando a decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que proíbe a comercialização, importação e propaganda de qualquer dispositivo eletrônico para fumar. Da mesma maneira, foram apontados os riscos do uso de narguilés, bem como a necessidade de fiscalização e da promoção de campanhas de conscientização para reduzir o consumo desse produto.

Atividade física, exercício físico e esporte: A diretriz aborda os efeitos, riscos e benefícios sobre a prática de atividades físicas, exercícios físicos e esportes e apresenta uma recomendação mínima para a prescrição dessas atividades: atividade física semanal ≥ 150 minutos de exercícios em intensidade moderada ou 75 minutos de exercícios intensos, e conclui o tópico com algumas mensagens:

  • Qualquer quantidade de atividade física parece ser melhor do que nenhuma;
  • O sedentarismo é a pior situação possível;
  • Os benefícios da prática de exercícios físicos parecem aumentar de acordo com a quantidade praticada, até cinco vezes a recomendação mínima;
  • Não há evidências científicas consistentes de que a prática de exercícios superior acima de 10 vezes da recomendação mínima seja prejudicial para a saúde;

Espiritualidade e fatores psicossociais em medicina cardiovascular: Este é um tópico novo, cuja inclusão se justifica pelas evidências da relação entre espiritualidade, religião, religiosidade e os processos de saúde, adoecimento e cura, bem como pelo fato de que cerca de 80% da população mundial possui alguma afiliação religiosa e a fé tem sido identificada como poderosa força mobilizadora na vida de indivíduos e comunidades.

Após detalhar conceitos e discutir evidências sobre o tema, o documento apresenta recomendações sobre a aplicação prática, das quais se destacam respeito e apoio às religiões, crenças e rituais pessoais do paciente desde que não sejam prejudiciais ao tratamento; reconhecimento de que religiosidade organizacional está associada à redução de mortalidade (classe I); indicação de meditação, técnicas de relaxamento e combate ao estresse (classe II); reconhecimento de que espiritualidade e religiosidade potencialmente aumentam sobrevida (classe II); aplicação de técnicas de fortalecimento espiritual como perdão, gratidão e resiliência (classe II).

A diretriz aponta medidas práticas que podem contribuir para enfrentar os principais fatores de risco, inclusive os socioeconômicos e ambientais, considerados os principais determinantes da saúde das populações. Entre elas, recomenda promover um ambiente saudável abrangendo poluição do ar e sonora, garantir fundos para estudos sobre os efeitos do estresse ambiental, fomentar eventos abordando as doenças crônicas não transmissíveis, desigualdades sociais, econômicas e ambientais no acesso à saúde.

O texto finaliza enfatizando que a implementação das ações populacionais recomendadas exige o comprometimento amplo de toda a sociedade, com envolvimento de órgãos governamentais, instituições de ensino, sociedades científicas, veículos de mídia, entre outros.

Referência

Précoma DB, Oliveira GMM, Simão AF, Dutra OP, Coelho OR, Izar MCO, et al. Atualização da Diretriz de Prevenção Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2019. Arq Bras Cardiol. 2019; [online]. ahead print, PP.0-0.

Deixe uma resposta

Fechar Menu