Impactos psicológicos da quarentena

Impactos psicológicos da quarentena

Quarentena é a separação e restrição de trânsito de pessoas que, eventualmente,  possam ter sido expostas a alguma doença contagiosa. Seu objetivo é diminuir o risco de transmissão para outras pessoas. Quarentena difere de isolamento, que consiste na separação de pacientes diagnosticados com alguma doença contagiosa de pessoas sem  doença aparente, mas, na prática, os dois termos são usados quase como sinônimos.

A palavra quarentena foi usada pela primeira vez em Veneza, em 1.127 DC, para isolar pacientes com hanseníase, e amplamente utilizada durante a peste negra. Recentemente o termo voltou a ser utilizado na China em relação à Covid-19 (sigla do inglês, Coronavirus Disease 2019), quando cidades inteiras foram colocadas nesta condição. Essa não foi a primeira vez que vilarejos ou cidades inteiras foram colocadas em quarentena; em 2003, algumas áreas na China e no Canadá entraram em quarentena em função da síndrome respiratória aguda grave (SARS, sigla do inglês, Severe Acute Respiratory Syndrome), além de vilarejos inteiros na África durante o surto de Ebola.

A quarentena normalmente é uma experiência desagradável, pois existe separação de parentes, perda de liberdade, incerteza sobre a doença e tédio, situação que pode exercer grande impacto psicológico. Diante desse cenário, um estudo de revisão publicado no Lancet avaliou preditores de impacto psicológico pré-quarentena, fatores estressores durante e após a quarentena e possíveis maneiras de reduzir esse impacto psicológico e psiquiátrico para a população.

Perguntou-se que características particulares e demográficas poderiam ser preditores de impacto psicológico na quarentena. O estudo identificou que em mulheres jovens (de 16 a 24 anos), com baixo grau de instrução e filhos houve impacto negativo da quarentena. Profissionais da saúde apresentaram sintomas mais intensos de ansiedade, raiva, medo, frustração, culpa e tristeza, além de mais medo de infectar outras pessoas.

Os estressores, frequentemente encontrados durante a quarentena, foram: duração da quarentena, medo da infecção, frustração, tédio, falta de suprimentos, falta de informação, perdas financeiras e estigma.

O estudo mostrou que quanto mais longa for a quarentena, maior o impacto na saúde mental, preponderando  sintomas de raiva, ansiedade e esquiva. Além disso, as pessoas em quarentena apresentaram temor pela própria saúde ou de infectar os outros e que gestantes e famílias com filhos pequenos representaram  grande parcela da população com medo da infecção.

Confinamento,  perda da rotina e  redução do contato físico e social com outras pessoas frequentemente causam tédio, frustração e sensação de isolamento do resto do mundo. A frustração aumentou diante da impossibilidade de realizar as atividades do dia a dia, como fazer as próprias compras de necessidades básicas ou interagir socialmente.

A inadequação de suprimentos como água, comida, roupas ou acomodação durante a quarentena é fonte de frustração, e tem sido associada à ansiedade e raiva. Estes sentimentos podem durar por volta de quatro a seis meses após o término da quarentena. Além disso, a falta de acesso a atendimento médico regular e prescrições médicas também foi problema para as pessoas em quarentena.

De acordo com os autores, muitas pessoas que ficaram em quarentena citaram que a falta de informações do poder público é um estressor, referindo insuficiência de orientações sobre ações e o propósito da quarentena. Participantes relataram falta de transparência das autoridades sobre a gravidade da pandemia.

Os principais estressores, após a quarentena, foram finanças e estigma.

Perdas financeiras podem acarretam dificuldades durante a quarentena, pois muitas pessoas não podem trabalhar e são pegas de surpresa neste momento sem se organizar financeiramente. O estudo mostrou que perdas financeiras causam angústia e são fatores de risco de sintomas psiquiátricos como ansiedade e raiva, podendo perdurar mesmo após o fim da quarentena. Além disso, um outro estudo com pessoas em quarentena durante o surto de Ebola concluiu que, mesmo recebendo auxílio financeiro, a ajuda foi insuficiente e chegou tarde demais. Outro estudo mostrou que pessoas mais pobres acabam sendo mais prejudicadas nestes períodos.

O estigma em relação a outras pessoas foi o tema mais recorrente, persistindo por um bom tempo após a quarentena. Em comparação entre profissionais da saúde que ficaram em quarentena e aqueles que não ficaram, os primeiros relataram maior sensação de estigmatização e rejeição de pessoas nos bairros onde viviam. Participantes de estudos relataram que foram tratados de maneira diferente por outros, sendo temidos por alguns, além receberem comentários críticos. Diversos profissionais de saúde envolvidos no surto de Ebola, no Senegal, relataram que durante a quarentena suas famílias os pressionaram a abandonar seus empregos pelo alto risco, o que criou  tensão domiciliar.

Os autores ressaltam que educar as pessoas sobre as doenças, além de explicar os fundamentos da necessidade de quarentena, pode diminuir o estigma e que a mídia deve tomar os devidos cuidados ao relatar as notícias para o público em geral. É importante que as autoridades de saúde pública forneçam informações rápidas e claras para a população.

O que se pode fazer para atenuar as consequências da quarentena?

Os autores da revisão sugerem alguns fatores que podem reduzir as consequências da quarentena: manter a quarentena o mais breve possível, fornecer o máximo de informações para a população, fornecer suprimentos adequados, reduzir o tédio e melhorar a comunicação.

As quarentenas mais longas estão associadas a desfechos psíquicos mais negativos. Deve-se tentar restringir sua duração ao menor tempo possível, respeitando as evidências científicas. Entende-se que, para pessoas que já estão em quarentena, a decisão de estender ainda mais o período de isolamento pode causar ainda mais frustação e sensação de desmoralização.

Pessoas em quarentena normalmente têm medo de infectar outras pessoas ou de ser infectadas por elas. Muitas vezes as pessoas confinadas têm avaliações catastróficas dos sentimentos experimentados durante a quarentena. Os autores pontuaram que é fundamental que as pessoas submetidas ao confinamento tenham um bom entendimento sobre a doença em questão e as razões para a quarentena.

O tédio e o isolamento causam angústia e sofrimento. Pessoas em quarentena devem ser orientadas, e medidas objetivas devem ser repassadas para que elas tenham mais condições de lidar com o estresse da situação. É essencial acionar amigos e familiares remotamente. Um estudo mostrou que disponibilizar uma linha direta com psiquiatras e outros profissionais de saúde mental especificamente para as pessoas em quarentena diminui o senso de isolamento. É importante que as empresas provedoras de internet se preparem para a sobrecarga de seus sistemas, e que ofereçam velocidade mais alta para os lugares em quarentena. É importante também disponibilizar linhas diretas com profissionais de saúde que possam dar informações sobre o que fazer e para onde se dirigir em caso de contaminação.

Os profissionais de saúde geralmente estão em quarentena e esta revisão sugere que, assim como a população em geral, eles sofrem efeitos negativos. Os profissionais de saúde acabam sentindo-se culpados por abandonar seus postos de trabalho e de causar uma sobrecarga aos seus colegas. É importante que estas pessoas tenham o suporte de seus colegas mais próximos.

No geral, este estudo sugere que as consequências da quarentena são amplas e podem durar por um longo tempo. Diante desta conclusão, os autores não sugerem que a suspensão de quarentena, mas reforçam que, com a necessidade da quarentena, as autoridades devem tomar todas as medidas para que essa experiência seja mais tolerável para as pessoas.

Referência

Brooks, S. K. et al. The psychological impact of quarantine and how to reduce it: rapid review of the evidence. Lancet 395, 912–920 (2020).

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